Make your own free website on Tripod.com


 Biologia: Câncer Página Principal  

 

Entrevista com o Dr. Luís Paulo Kowalski.

 

O que é câncer e qual a sua relação com tumores?

LPK - Tumor é um termo genérico e aplica-se a qualquer estrutura que esteja crescendo no organismo, como ocorre numa reação inflamatória e num abscesso. O tumor benigno é aquele que tem crescimento local, empurrando o que está em volta e não tendo capacidade de invadir outros locais. É o caso dos "lobinhos" de gordura sob a pele. Câncer é um tipo específico de tumor, cujo crescimento não obedece a certos controles. Cânceres são tumores malignos, havendo mais de cem descritos; considerando os subtipos, existem alguns milhares deles. A principal característica é a instalação local, na pele, por exemplo, seguida da invasão de outras partes, como camada de gordura, músculos e ossos. Essa invasão é denominada metástase. Algumas células originadas no local de instalação se desprendem, vão para a corrente sangüínea e acabam parando em outro local, onde desencadeiam o crescimento de um novo tumor.

 

Por que o câncer mata?

LPK - A principal razão pela qual um câncer mata é que ele cresce sem nenhum controle, vai consumindo o aporte de energia e nutrientes, a pessoa vai perdendo as forças e reduzindo seu peso. Depois pode haver invasão de estruturas vitais, como os pulmões, afetando grande área e impedindo que o indivíduo respire normalmente, o que acaba provocando sua morte. No cérebro pode ocorrer compressão de estruturas vitais, também ocasionando óbito. Há tumores em superfícies que provocam sangramentos, os quais também podem levar à morte.

 

Câncer é contagioso?

LPK - Nenhum tipo de câncer é contagioso. Não precisamos ter receio de ter contato com pessoas portadoras de câncer.

 

Quais são os determinantes do câncer?

LPK - Os principais determinantes do câncer são ambientais. Estudos epidemiológicos mostram que um terço das mortes por cânceres poderia ser evitado se as pessoas não fumassem. Outro terço é representado por hábitos alimentares inadequados. As pessoas podem consumir alimentos que contêm carcinogênicos. Gorduras em excesso na dieta aumentam o risco de câncer de intestino e de mama. As pessoas podem deixar de ingerir substâncias protetoras, como as vitaminas A e E, de poder antioxidante. Com o consumo adequado dessas vitaminas, a chance de o indivíduo ter câncer diminui. As fibras - presentes em verduras, milho e feijão - também são protetoras, sobretudo em relação a tumores do aparelho digestivo.

 

Precisamos ter uma dieta equilibrada e não fumar: isso reduz em dois terços o risco de câncer. O outro terço é representado por uma série de fatores. Por exemplo, para a pele, o principal fator é a exposição excessiva ao Sol. O uso de bebidas alcoólicas relaciona-se com câncer de boca, faringe e esôfago. A exposição a agentes químicos industriais também pode ser fonte de risco, como ocorre em algumas indústrias químicas, metalúrgicas ou têxteis. Quem trabalha em contato com substâncias que se sabe são carcinogênicas tem de se proteger com o uso de roupas, óculos etc.

 

As radiações também podem ser cancerígenas; o raio X, por exemplo, é usado para diagnóstico de doenças e, em altas doses, no tratamento de câncer; mas pequenas doses podem causar câncer de tireóide, de mama e leucemia.

Alguns cânceres podem ser genéticos. O retinoblastoma afeta o olho; se o pai ou a mãe teve, o filho provavelmente vai ter; para o carcinoma medular da tireóide já foi identificado o gene responsável; a poliplose do colo também afeta famílias inteiras. Em outros cânceres, como os de pulmão e de boca, o cigarro é um fator importante. Você pode dizer que conheçe pessoas que fumaram três maços de cigarro por dia, durante 90 anos, e não tiveram nada. O que ocorre é que há uma predisposição genética em que o indivíduo pode ficar mais sensível a agentes carcinogênicos. Há indivíduos com risco muito baixo de contrair câncer; já o indivíduo predisposto, mesmo com baixa exposição ao agente carcinogênico, poderá desenvolver câncer. No caso de câncer de laringe, se indivíduo tiver pais com esse tipo de câncer, o risco de ter câncer é duas vezes maior; se indivíduo tiver irmão com esse tipo de câncer, o risco é sete vezes maior.

Quer dizer: os mecanismos que desencadeiam o câncer são diversos, mas não há métodos que permitam avaliar se o indivíduo é de alto risco ou não. Há a expectativa de se fazer, na próxima década, a previsão com o mapa genético individual. Por meio dele, por exemplo, poder-se-á avaliar o risco de se desenvolver câncer de pulmão e se dizer ao indivíduo que ele não pode ser fumante de jeito nenhum. Quanto ao álcool, a sensibilidade é individual; algumas pessoas produzem mais substâncias carcinogênicas do que outras e o efeito do álcool varia de indivíduo para indivíduo; já se identificaram enzimas responsáveis pelo metabolismo do álcool que ativam ou geram essas substâncias. Também já se verificou que dependendo do tipo de álcool e de tabaco os efeitos variam. A bebida alcoólica de má qualidade e com impurezas tem mais substâncias nocivas. Na Inglaterra foi feito um estudo com uísque e demonstrou-se essa relação. No Brasil, a cachaça, que é a bebida alcoólica mais consumida, não tem controle, com raríssimas exceções, e pode causar câncer de boca, faringe, laringe e esôfago. Não sabemos direito o que essas bebidas contêm. No Brasil se consome menos bebida alcoólica do que em muitos países desenvolvidos, mas o Brasil é o que tem a segunda maior incidência de câncer de boca do mundo. O cigarro não é muito diferente nas várias partes do mundo, mas a bebida alcoólica varia e essa pode ser uma provável causa dessa alta incidência.

 

Dos itens abaixo, quais são potencialmente cancerígenos?

a) Adoçantes artificiais: os utilizados comercialmente não são.

b) Microondas: não.

c) Bronzeamento artificial: quem tem pele muito clara apresenta os mesmos riscos de quem se expõe excessivamente ao Sol.

d) Aparelho ortodôntico: não. O problema ocorre com próteses dentárias mal-ajustadas, que ficam machucando a mesma região da boca por vários anos.

e) Café: não.

f) Maconha: nas doses que os usuários geralmente empregam, não.

g) Amendoim: sim, se houver contaminação com fungos que liberam a aflotoxina.

 

Qual a influência de traços de personalidade e estado emocional na determinação do câncer?

LPK - As questões psicológicas são polêmicas. Não há nenhuma prova científica da influência desses fatores que levam os indivíduos a desenvolverem câncer. É provável que características psicológicas levem algumas pessoas a terem hábitos de vida que podem levar ao câncer, como consumo de bebida e cigarro, e não o aspecto psicológico em si. Mas não é uma questão fechada, tem muita gente pesquisando isso. O problema da maioria das pesquisas é que são estudadas pessoas já com câncer, grandemente afetadas pela doença. Deveríamos saber como era a vida antes do câncer; a amostra é, portanto, viciada. Os próprios familiares passam a enxergar no paciente defeitos no passado que talvez não existissem.

 

Câncer é doença de velho?

LPK - A maioria dos cânceres ocorre em idosos, mas há casos de cânceres também em crianças, como o retinoblastoma; o melanoma múltiplo é exclusivo de pessoas mais velhas; adultos jovens podem ter cânceres da tireóide. Na realidade, a maioria das pessoas adultas terá algum tipo de câncer, mas poderá não manifestar a doença. Estudos feitos com autópsias de pacientes mortos por outras razões, com mais de 80 anos, revelam que quase 100% tinham câncer de próstata, mas não manifestaram a doença. O risco de ter câncer vai aumentando com a idade. Por isso, nas sociedades mais industrializadas há maior porcentagem de pessoas idosas e o número de indivíduos com câncer é maior que nos países em desenvolvimento. Quanto maior a expectativa de vida, mais o câncer encosta nas doenças cardiovasculares. No Brasil, tirando as mortes violentas, é a segunda causa de óbitos.

 

Quais os tipos de cânceres mais freqüentes no Brasil?

LPK - Depende da região e do sexo. No Brasil como um todo, os homens têm maior incidência de câncer de estômago e de próstata e nas mulheres, de mama e colo do útero. O câncer de boca corresponde entre a quarta e a quinta incidência de câncer no homem, enquanto na mulher é a oitava.

 

Quais as formas de tratamento do câncer?

LPK - O tratamento depende do tipo de câncer e do estágio de evolução da doença. Há três tipos básicos de tratamento: a quiomioterapia, a radioterapia e a cirurgia. A cirurgia é hoje a principal forma, representando mais da metade do tratamento dos tipos de cânceres; existem estatísticas americanas bem-elaboradas que mostram que a cirurgia é o método que mais cura o câncer.

 

Outros casos são indicados para a radioterapia, que é o uso de raio X em altas doses, capaz de destruir alguns tipos de tumores que são sensíveis ao tratamento. Existem avanços importantes na área de radioterapia, que tornaram o tratamento mais eficaz e com menos seqüelas, utilizando equipamentos que expõem a área de forma muito mais precisa, afetando menos tecidos sadios próximos.

 

As cirurgias de câncer são diferentes das demais formas de tratamento e levam em conta vários fatores, como a disseminação da doença; em geral, envolvem equipes multidisciplinares, pois também inclui o trabalho de remoção do tumor e reparação da área que foi trabalhada no paciente. Muitas vezes é necessária a radioterapia complementar.

A quimioterapia consiste na aplicação de remédios, na forma de comprimidos ou injeções. É um tratamento indicado para linfomas e também usado em associação no tratamento de tumores sólidos, como o de pulmão e o de mama.

Com esses tratamentos convencionais, conseguimos curar entre 50% a 55% dos cânceres; na década de 1960, a cura era entre 30% a 35%. Existem tumores que eram considerados incuráveis e hoje se pode fazer a cura de boa parte deles. Mas há aqueles em que não houve avanço em termos de cura, como certos tumores de estômago, que há 20 anos tinham cura praticamente igual à de hoje.

Laser não substitui ainda a cirurgia convencional, mas é um método promissor para o futuro, principalmente para lesões pequenas, precursoras do câncer.

 

E as chamadas "terapias alternativas"?

LPK - Muitas doenças têm sua cura realizada com produtos que se originam da natureza. No entanto, não há um controle adequado quando o paciente utiliza esse tipo de terapia. Devem ser feitos testes em animais e depois em seres humanos, num processo que costuma ser bastante demorado. De uma forma geral, não nos opomos a que o paciente procure outro tipo de ajuda paralela, inclusive religiosa, desde que isso não prejudique o tratamento que foi estabelecido. Não tivemos notícia de cura de pacientes que deixaram o tratamento convencional e passaram para essas outras formas de terapia. O que ocorre é que às vezes não é feito um diagnóstico preciso de câncer; uma lesão, à primeira vista, pode parecer um câncer e o paciente pode recorrer a um tratamento alternativo e curar aquilo que apenas parecia câncer.

Melhores Web
Josemar Paraguassú Júnior