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 Redação: O jovem Mostra sua Cara Página Principal  

Redações dos últimos vestibulares da USP revelam uma elite com idéias e preparada

 

Cabeça enorme, com grandes ouvidos e olhos arregalados. Mãos grandes em relação ao corpo e, no peito, um buraco." Com esse auto-retrato aflito, o jovem autor anônimo discorreu sobre o tema proposto pela Universidade de São Paulo (USP) para a redação do último vestibular, realizado em janeiro. A proposta era uma avaliação da geração que bate às portas do ensino superior. A imagem composta pelo calouro expressa um desassossego comum à maioria. De um lado, a elite da juventude que chega ao terceiro grau é competente, bem informada e conta com recursos materiais para disputar uma vaga no mercado de trabalho. De outro, desprovida de bandeiras, essa mesma elite segue sem rumo. Como já aconteceu em várias outras gerações.

A conclusão é de especialistas que, a pedido de Época e com a ajuda da Fuvest, examinaram 51 das melhores redações do concurso (os textos podem ser lidos, na íntegra, no site da revista, www.epoca.com.br). O resultado do trabalho é um rico perfil dessa elite, desenhado a partir do que pensam sobre si mesmos os mais articulados dos 138 mil candidatos de todo o país que disputaram uma vaga na maior universidade brasileira.

Essa elite que em breve ocupará gabinetes oficiais e escritórios acarpetados de empresas privadas reflete e argumenta com clareza. Crítica implacável de si mesma, transpira insatisfação e sente o peso do mundo nas costas. Diferente da geração dos pais, com um glorioso passado de desafio à ditadura, ela tem pela frente guerrilhas cotidianas e individuais contra o consumismo, o desemprego, a Aids. Considera-se alienada porque não dispõe de uma causa em comum, mas reconhece que é socialmente privilegiada e sente-se culpada. As revelações intrigam Maria Thereza Fraga Rocco, educadora da USP que desde 1978 analisa redações do vestibular. "Estou encantada com o progresso do domínio de linguagem e da capacidade discursiva", comenta. "Mas angustiada com o julgamento severo que os jovens fazem de si mesmos."

Maria Thereza está concluindo a pesquisa Fuvest 21 Anos: a Maioridade da Redação e nota que a qualidade das dissertações melhora ano após ano. Alguns textos apresentam passagens de fazer inveja a pós-graduados. Um bom exemplo é a redação "Deitado.... em berço esplêndido. Eternamente?", uma releitura das estrofes do Hino Nacional (leia trecho à esquerda) que excede em muito o nível que se espera de um vestibulando. Há um perfeito paralelismo de idéias na comparação entre o privilegiado aspirante à universidade e um menino de rua. Os textos revelam capacidade de reflexão pessoal e competência ao fazer jogos de linguagem que não podem ser atribuídas apenas ao treino insistente dos cursinhos. "Cada aluno se expressa a sua maneira, de forma muito consciente", diz Maria Thereza. Fica revogada a imagem que se cristalizou na década de 80 de um jovem vazio de idéias e incapaz de se expressar pela escrita.

Um traço comum entre os jovens, hoje, é a reverência aos anos 60 e 70. A geração que cresceu ao som de Madonna e de Michael Jackson gostaria de ter vivido a juventude dos pais. Idolatra Chico Buarque, Caetano Veloso e Gilberto Gil, critica a música descartável e envergonha-se da falta de consciência coletiva. "Éramos arrogantes e felizes, esses meninos são muito mais racionais e sofridos", compara a professora. Eles admiram a história dos pais, mas poucos percebem que o comportamento da juventude mudou porque o contexto histórico é outro. Com o fim da Guerra Fria, o ocaso do comunismo e o fortalecimento do neoliberalismo, quebraram-se as grandes bandeiras. "A sociedade valoriza cada vez mais as saídas individuais e isso se reflete na juventude", comenta o presidente da União Nacional dos Estudantes (UNE), Ricardo Cappelli, aluno da Universidade Estácio de Sá, do Rio de Janeiro.

O vírus do individualismo produz a insatisfação e a ausência de projeto de vida expressas nas redações, segundo o psiquiatra Içami Tiba. Para ele, na falta de um inimigo comum, a juventude passa por uma crise de identidade. As famílias voltaram-se para dentro de casa, e os jovens vivem em guetos. Tiba tem esperanças de que a chegada à universidade revele a esses jovens novos horizontes. "Podem descobrir as atividades não-governamentais e funcionar como multiplicadores de conhecimento." A psicopedagoga Zuleica Pimenta De Felice também acredita que a educação possa colaborar para o resgate da auto-estima e dos valores perdidos. Para ela, os jovens estão atônitos diante da liberdade ilusória e do bombardeio de informações via TV e Internet. A velocidade das mudanças os incomoda e, ao contrário dos pais na juventude deles, sonham pouco.

"Eles jogam a vida para o futuro como se não houvesse espaço para construir nada agora", comenta a professora de História Contemporânea da USP, Maria Aparecida de Aquino. Sinais de apatia também foram percebidos pela educadora Tania Zagury, da Universidade Federal do Rio de Janeiro. Segundo ela, os vestibulandos notam que são consumistas e influenciados pela TV, mas demonstram nas redações que é impossível reagir. "Os estudantes estão conscientes da enrascada em que se encontram", diz o pesquisador Cláudio Guimarães, da Faculdade de Medicina da USP. É perceptível também que os jovens vivem a expectativa de uma revolução cultural, comenta o psicoterapeuta João Augusto Figueiró. A vontade de fazer um mundo melhor transparece, ainda que seja um desejo sem muita convicção estampado nas últimas linhas das redações. Como diz Maria Thereza, os estudantes precisam deixar de idolatrar excessivamente o passado e manejar seus defeitos e qualidades. Talento para isso não lhes falta. Como diz um dos candidatos, "a juventude pode estar carente de parâmetros. Mas concentra em si a incessante busca do novo, da experiência e da transformação". O sonho não acabou.

O jovem dos anos 90 vive um momento de liberdade e um leque de opções como poucas gerações anteriores. Mas tem de decidir contra fantasmas. Com ou sem camisinha? Que carreira não será obsoleta amanhã? Liberdade sofrida.

Esta defesa da geração entre 16 e 21 anos não tem por objetivo endeusá-la. Ela tem defeitos, até graves. Deve-se cobrar dela responsabilidades condizentes com os anos 90. Não podemos condená-la por não fazer o que seus pais não concluíram.

Egocêntrico, presunçoso e conformado, o jovem de hoje olha no espelho e pergunta-se sobre seu papel no mundo. Sem grandes feitos, contenta-se com uma vaga na faculdade, um emprego, uma vida estável e só. Sem muitas expectativas ou sonhos de igualdade.

A juventude pode estar carente de parâmetros, mas concentra em si a virtude inerente à condição de ser jovem: a incessante busca do novo, da experiência e da transformação. Ela continua sendo a esperança de um futuro melhor.

Brasil, um sonho intenso! Um raio vívido? Sonhos não faltam. A juventude se expressa contra as injustiças. Seria essa vontade um raio vívido no coração juvenil? Quem nos garante que o tempo não levará essa força? De amor e de esperança a terra carece.

Esta geração não conheceu o mundo sem Aids, sem telas virtuais, sem o domínio das drogas. Nasceu conhecendo o individualismo. Nasceu praticando a teoria da seleção natural de Darwin em que os mais adaptados às condições reinantes sobrevivem.

Uma estátua surrealista nos moldes de um corpo humano. A cabeça enorme, com grandes ouvidos e olhos arregalados. As mãos grandes quando comparadas ao corpo. No peito, um buraco. Essa é a imagem formada quando se pensa na jovem geração.

A injusta distribuição de renda e a criminalidade geraram jovens de condomínio fechado. Cercada em seu mundo de fantasia, essa geração não tem consciência social, nem interesse em conhecer o que há por trás dos muros de seu país das maravilhas.

 

Veja aqui qual foi o tema, e a melhor redação de 1999 da USP

 

Fonte: Revista Época.

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Josemar Paraguassú Júnior